Entrevistas

Ex-reitora defende governos petistas Lula e Dilma e tem orgulho de ser comunista

05/07/18 às 13:29

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Ex-reitora defende governos petistas Lula e Dilma e tem orgulho de ser comunista
Natural de Nova América (São Paulo), Maria Lúcia Cavalli Neder chegou a Mato Grosso em 1973. Desde então, se dedicou a UFMT e conduziu 42 anos de sua trajetória em todos os cargos administrativos possíveis, até que chegou a reitoria. Foi eleita e reeleita entre os anos de 2012 à 2016. Antes de se aposentar na instituição se filiou ao partido PCdoB, o qual faz parte até hoje. Em 2018 se lança como pré-candidata ao Senado e ainda é lembrada para a vaga de vice na chapa de Wellington Fagundes (PR) ao governo. Se orgulha em ser do partido comunista. Em sua pré-campanha, recebe apoio de bandeiras do movimento negro, LGBT, das mulheres e outros. Apesar de ter sua religião, acredita que o Estado deve ser laico, sem a interferência religiosa em questões como o casamento homoafetivo. Maria Lúcia falou sobre pré-candidatura, comunismo e as pautas polêmicas que trâmitam no Congresso. Confira os melhores trechos da entrevista!

Vislumbrando uma candidatura ao Senado, o que destaca de positivo no período em que esteve na UFMT?
Sem dúvida nenhuma toda essa trajetória, não só a de ser uma professora e fazer os projetos, contribuem. Eu tenho princípios, uma é a democracia. Outro princípio é da soberania nacional e os cidadãos serem os guardiões das riquezas do país. Fico muito triste em ver esse governo que entra sem nenhuma responsabilidade, uma vez que não foi votado diretamente e entregando as riquezas nacionais. Na UFMT, quando me tornei reitora, tínhamos 10 mil alunos fomos para 30 mil alunos, tínhamos 77 cursos de graduação e fomos para 106, 17 de pós-graduação e fomos para 62. Fizemos 215 novas obras em três campus novos (Várzea Grande, Sinop e Barra do Garças). Penso que a universidade nunca viveu um período tão dinâmico. Quadriplicamos o número de pesquisa na universidade e, o mais importante, nossos índices de qualidade. Devemos isso aos governos populares, pois outros governos querem privatizar.

O que a levou a tentar disputar uma vaga ao Senado?
Quando comecei a atuar no partido ainda não tinha noção do que é ser uma pré-candidata. Depois, comecei a compreender a dinâmica e vi que eu podia fazer algo, como fiz na vida universitária. Desenvolvemos um plano de ação com análises e indicações.  O senador tem que pensar localmente, mas também nacionalmente. Dentre as principais temáticas, estou me dedicando a educação, saúde, meio-ambiente e saneamento básico, infra-estrutura e logística, segurança pública, cultura, agricultura - tanto no agronegócio quanto na agricultura familiar. Essa entrada na política, para mim, está sendo muito prazerosa, porque é um espaço onde eu posso reunir pessoas e essa pré-candidatura é um norte, um meio para ouvir a sociedade e os movimentos para produzir um documento que traga discussão.

Sempre foi muito ligada aos ex presidentes Lula e Dilma, representantes dos partidos de esquerda, demonizados na atualidade. Acredita que isso pode prejudicá-la eleitoralmente?
Eu penso que não. Dos anos 1980 até 2000, na época do Fernando Henrique, nós vivíamos uma penúria muito grande dentro da universidade, em que não tínhamos dinheiro nem para comprar papel higiênico, água ou giz. Todos vêem a realização das coisas. As pessoas estão percebendo que havia uma situação econômica e o presidente Lula teve uma economia bastante forte e importante, ao criar 10 milhões de empregos e tirar 35 milhões da pobreza extrema. Começaram a consumir aquilo que elas não tinham oportunidade. E nós não podemos aceitar que um país tão rico como o nosso tenha gente passando fome. Com governo de esquerda houve uma realização social, mas também a grande economia (seja o agronegócio, indústrias automobilísticas e outras) cresceu. Pode até ter uma reação contra a esquerda, pois as pessoas não conseguem nem entender o que significa ser da esquerda ou ser da direita.  Tenho orgulho de ser comunista. Digo que fui comunista a vida toda, só que antes eu não sabia. O comunista é aquele que adota o povo como a sua base. É um governo do povo para o povo. Portanto a democracia para nós é importante.

Na época das campanhas para Reitoria, alguns candidatos a acusaram de ser centralizadora. Concorda com tal afirmação?
Sou determinada e se eu for candidata a senadora não abrirei mão daquilo que me comprometi a fazer com a minha base. Sou uma mulher de luta a minha vida inteira. Para estudar, andava em cima de um caminhão de leite, com poeira, amarrando cabelo com pano, chegando a uma rodoviária para lavar o rosto sem desistir. Maria Lúcia é isso.

Os últimos anos foram marcados pelas inúmeras greves na UFMT. Algumas, enquanto a senhora estava como reitora. Como avalia tais movimentos?
A greve é um direito legítimo do trabalhador. Se não há uma concordância entre as partes ele radicaliza pela greve. A maioria das greves nas universidades não é feita por questões internas, em razão do diálogo com o governo federal. Sempre fui mediadora nesses processos de greve.

Quais os critérios eram executados na oferta de bolsas para os alunos na universidade?
A baixa renda. Até um salário mínimo e comprovado com a declaração. Antes, tinham 700 pessoas fazendo refeições, hoje tem 3 mil. Garanti o restaurante por R$ 1 durante oito anos. Adotei uma política forte para que o estudante de baixa renda pudesse permanecer. Não tinha bolsa moradia, bolsa assistente, nós criamos. Não basta entrar na universidade, é preciso garantir a permanência. Essas políticas eu me orgulho muito. Quem estabelecia esses critérios eram os conselhos da universidade e não a Reitoria.

Acredita que a cota social é a única forma de se propor acesso a educação nas universidades?
Ela só não será a única forma no dia em que esse Brasil tiver melhor distribuição de renda e o filho do trabalhador puder pagar uma universidade particular. Quando se discute cota vem à questão da pessoa que não aceita tal programa, sobre o argumento do mérito entre desiguais. Não dá para falarmos em oportunidades iguais, quando o filho de classe média estudou em escola particular, viajou, teve acesso a literatura, enquanto o filho do pobre tem que cuidar da casa para os pais trabalharem. Então, quando se coloca a cota, o governo atende o aluno de escola pública, independente de ser negro, branco ou indígena. O ideal é que nós não precisássemos ter concorrência na universidade. Que nós tivéssemos vaga para todos os estudantes que saíram da escola média. O país que quer se desenvolver não pode barrar seus estudantes. Na UFMT, nós aprovamos as cotas antes da lei. Além disso, entrou o Enem Sisu para trazer o pobre, trabalhador, negro e índio para dentro das universidades. Uma universidade do povo. Isso é ser um governo popular. Tenho orgulho de ter apoiado estes governos. Tenho a fundamentação de que o governo tem que ser para o povo e não para meia dúzia de privilegiados. Falar em Estado mínimo é não conhecer a realidade do povo brasileiro.

Qual nota de 0 a 10 o senhora dá para a Gestão Taques?
Como educadora nunca dou nota, sempre trabalho com conceito. Posso fazer um julgamento por aquilo que vivenciei no governo dele, que foram as questões ligadas à universidade. Aí eu trago o Hospital Universitário Júlio Muller, em que fez um compromisso com a universidade, para a repactuação de um convênio conjunto, mas não cumpriu.

Acredita na possibilidade da união da esquerda nas eleições em Mato Grosso?
Há um movimento de tentamos trazer PT, PDT, PSOL, PCdoB para o mesmo arco. Nós vimos algumas dificuldades e não é por questões ideológicas, mas questões de aproximação e de amizade, às vezes. Eu não vejo com estranheza isso, porque na vida a gente não lida com o ideal e sim com o real.

Os candidatos precisam se sentir confortáveis para erguer suas bandeiras. Nem sempre as suas bandeiras cabem nas alianças que você faz. Então se nós temos bandeiras, princípios e diretrizes, essas bandeiras deverão estar conosco, em toda pré-candidatura e, depois, na candidatura - se acontecer. Nesse arco de alianças de apoio ao Senado, nós encontramos espaços para defesa das nossas teses e bandeiras políticas. Obviamente que cada um vai escolher aquele espaço que lhe deixa mais confortável, e eu não me sinto confortável em um espaço que seja de extrema direita, um espaço que abomina mulheres, a liberdade de expressão, o negro ou homossexual. Cada um fica no espaço que lhe dá conforto. Manuela [D'Ávila] - presidenciável do PCdoB - tem razão, o primeiro movimento de aliança se faz com movimentos populares.

Contra ou a favor da descriminalização do aborto?
Acho que um candidato nunca pode ter uma resposta sou a favor ou sou contra. Porque isso acaba tornando pequena uma questão complexa. Como uma pré-candidata ao Senado, faz-se a defesa da política para a nação e para o povo brasileiro. Mesmo que eu tenha uma defesa pessoal, eu não posso colocá-la como uma questão pessoal. Tenho que considerar as bases da discussão do problema. O Estado tem que fazer no mínimo uma consulta ao povo brasileiro. Você não pode negar essa discussão do direito sobre o corpo. Obvio que eu tenho uma formação religiosa, mas ela não pode ser uma coisa maior.

Contra ou a favor da descriminalização da maconha?
Você não pode negar que a maconha hoje está nos lares brasileiros. O Brasil enfrenta isso com um viés perverso da segurança pública. Quando se pensa na droga, você tem que pensar nas condições sociais. Hoje, há usuário de droga que vai da classe alta até a do pobre que não tem dinheiro para comprar a droga. A maconha já é usada para o benefício da saúde. Há países que estão trabalhando e nós também deveríamos estar preocupados em desenvolver teorias farmacêuticas nesse sentido. A questão da droga não é só eu sou a favor ou sou contra.

O Congresso discute o reconhecimento legal da união estável entre homossexuais, assim como a criminalização dos crimes de homofobia. A senhora é favorável?
O direito a sexualidade é individual. Da minha sexualidade tomo conta eu. A sociedade não tem nada a ver com isso. Por quê um senador ou um deputado diz que é contra a união homoafetiva? Ele tem é que tomar conta da vida dele. O Estado tem que dar proteção aos seus cidadãos, seja ele ou ela homossexual, negro, criança, idoso, branco ou índio. Trabalhar políticas públicas fortes contra a discriminação. Criminalizar a homofobia também, óbvio.

É favorável ao fim do desarmamento?
Sou contra o desarmamento. A pessoa que se sente ameaçada tem o direito e a legislação permite. Mas, adianta você colocar arma a torto e a direito na mão da população? Ao invés de armar, você tem que dar caneta. Temos que ser um exército de estudantes. Sou contra a política de armamento. Sou a favor de dar condições, treinamento, pois é a polícia que tem que nos proteger e não cada cidadão por si.

Acredita que política e religião devem se misturar?
O respeito à diversidade, as religiões têm que ser livres e o Estado não pode adotar uma religião. Quem tem que tomar é o cidadão. O Estado tem que ser laico.

Sobre a pré-campanha, as viagens estão sendo bancadas por quem? Como prevê a arrecadação para a campanha. Conta com ajuda de apoiadores, empresários?
Não conto com empresários neste momento da campanha. Conto com meu próprio financiamento em viagens curtas. Na eleição, espero ter a contribuição partidária. Não posso dispor do meu patrimônio que é pequeno para campanha. A vaquinha só poderemos usar, segundo a legislação, na campanha. As pessoas que estão trabalhando comigo são voluntárias. Nas viagens, cada um paga suas despesas e nos hospedamos na casa de amigos.
 
 
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