Entrevistas

Selma é contra o aborto, defende união homoafetiva e lei dura contra corrupção

02/06/18 às 10:30

Enviar para um amigo
Selma é contra o aborto, defende união homoafetiva e lei dura contra corrupção
Com a vida movimentada, chegou em seu apartamento, localizado em um bairro tradicional de Cuiabá e com vista privilegiada do por do sol. Pré-candidata ao Senado do PSL, Selma Arruda, 55 anos, ganhou notoriedade ao seguir à risca os preceitos da profissão e decretar a prisão e condenação de figurões da política mato-grossense. Após 22 anos na magistratura, a juíza aposentada faz as preliminares da rotina política, antes de se sentar. Confessa que ultimamente não tem voltado para casa antes das 22h, sobrecarregada de reuniões e viagens por todo Mato Grosso. Na sala de estar onde nos recebeu, à primeira vista, o que chama a atenção são os espaços para a devoção a Nossa Senhora Aparecida. Além do anel com a padroeira do país, três imagens da santa se destacam. Todas elas cuidadosamente trabalhadas de forma artesanal pelas próprias mãos da ex-juíza. De forma aberta e sem rodeios, Selma tratou sobre temas polêmicos que permeiam o Congresso Nacional. Declarou ser a favor da união homoafetiva, mas totalmente contra a liberação da maconha ou da descriminalização do aborto. Faz questão de confirmar sua posição contra a política de desarmamento. Confira os principais trechos da primeira entrevista da série com os sete principais pré-candidatos ao Senado, programada pelo site RD News:

Qual é o lugar da mulher na sociedade e na política? 
Não gosto muito de falar o lugar ou o dia da mulher, pois isso nos segrega. Todo mundo tem que ter o mesmo lugar ou a mesma oportunidade. Percebo que o território da política ainda é muito masculino. Às vezes estou em uma reunião e a única mulher sou eu. Sempre me impus, independente do meu tamanho ou sexo. No entanto, a política está devendo para as mulheres. Também acho que a mulher tem um pouco de preconceito com a política, por ser mais detalhista e mais cuidadosa, talvez tenha esse preconceito e recue pela fama da política não ser um bom lugar. A mulher precisa acordar, porque, quando forem, a coisa anda.

Sendo ex-juíza, como acredita poder contribuir no Senado?
Tenho muita experiência com a legislação, e uma experiência única em ter na mesma mão a criminalidade pobre e violenta e, também, a criminalidade muito mais perigosa, que é a do colarinho branco. Essa visão que tive na minha carreira, nenhum outro juiz teve. Acredito que possa contribuir tendo essa bagagem como juíza ou como quem sempre trabalhou com Leis, principalmente, como quem sabe onde estão as falhas.

O Código Penal é da década de 40, pretende participar das discussões para votação de uma reforma?
Tende a ser uma das minhas bandeiras sim. Minha vida toda eu fui juíza criminal, não acredito que o Código Penal, em sim, mereça tantas reformas. Talvez seja mais útil trabalhar no processo penal do que no código, pois as pessoas no Brasil têm mania de aumentar à pena, achando que aumentar a pena vai resolver alguma coisa, não é isso que resolve. O que resolve é a pessoa ter certeza que vai ser punida.

Sempre foi crítica ao fato de a legislação prever penas “brandas” aos crimes de corrupção. O que fazer no Congresso?  
Os crimes de colarinho branco é um dos motivos de ter optado para concorrer ao Senado. Lá a minha voz é igual à de qualquer outro senador. Na Câmara Federal existe 516 "caras" gritando, sendo oito de Mato Grosso. Crime de colarinho branco é um crime que tem pena baixa e quando vai aumentar à punibilidade, aumenta à pena máxima. O juiz, no entanto, nunca vai dar a pena máxima. Nós temos que fazer um exercício danado de unir outros crimes pra dar acima da mínima. O crime de corrupção tem pena mínima de dois anos e, em tese, o condenado pode pagar com cesta básica. Nem preso vai. Defendo o aumento da pena mínima para cinco anos, pois menos não adianta. E redução de alguns dispositivos processuais.

 A redução da maioridade penal é uma solução para reduzir a criminalidade?
Na medida em que eles cometem atos da vida adulta, não tem porque não tratar ele como adulto também na esfera criminal.

Só 16 anos ou menos?
16 é uma boa medida para ir se observando. Pode ser que daqui para frente, 16 anos seja pouco também. É uma coisa para ir dosando.

É contra ou a favor da descriminalização do aborto?
Absolutamente, a descriminalização do aborto, é inaceitável. Aborto é matar uma vida. A gente só está discutindo isso aqui porque a gente tá vivo. Esse discurso que sou dona do meu corpo e posso fazer o que eu quiser com ele tem que ser visto dos dois lados. A mulher tem sim que ter direito do próprio corpo, mas ela tem que ter responsabilidades por ele. Na medida em que engravidou, exceto se for um caso de estupro e em casos específicos que estão previstos em lei.

E a descriminalização da maconha?
Piorou. Muitas vezes até as drogas lícitas tem arrastado a sociedade para uma relativização de valores que a gente não deveria estar experimentando. Não sou uma puritana e, mesmo às vezes bebendo uma "cervejinha", acredito que é uma droga mais agressiva que a própria maconha e estimula a prática de crimes. Não adianta falar que não. Não sou a favor da maconha. Acredito que os usuários de drogas deveriam ser tratadas com menos direitos e mais responsabilidade.

O congresso discute o reconhecimento legal da união estável entre homossexuais, assim como a criminalização da homofobia. A senhora é favorável?
Claro, as pessoas que tem qualquer tipo de união devem ter seus direitos reconhecidos. Eu já vi muitos homossexuais que construíram uma vida, compraram casa e apartamento e o parceiro faleceu. Depois disso, a família do falecido vai lá e pega tudo e o outro fica sem os direitos reconhecidos. Sendo que trabalhou tanto quanto. Isso é uma coisa discriminatória. Acho que deve ser plenamente reconhecido esse tipo de coisa.

E a homofobia?
Tem que ser criminalizado é óbvio. Tudo quanto é fobia. Sobre a homofobia, é incrível imaginar que alguém pode bater em uma pessoa, porque ela tem a "opção sexual" diferente. Tem coisas que são um pouco agressivas, dependendo do ambiente. Eu fico tentando imaginar, por exemplo, você está saindo de uma boate a noite e aí vem uma drag queen ou uma travesti, uma coisa assim. Aí, começa a dar bafão, sei lá, o "cara" bêbado ou drogado. Realmente, vai te incomodar aquilo. Às vezes até choca né? Você fica chateado com aquelas coisas. Como um hétero. Mas não quer dizer que você tem que matar o "cara", bater ou excluir.

Porque é favorável ao fim do desarmamento?
Os países desenvolvidos não acreditam no desarmamento. O desarmamento é uma maneira de controle social absurdamente desonesta. Eu acredito que as pessoas têm que ter o direito de uma arma, principalmente para defender as famílias, sua propriedade. Já fui vítima disso e sei o que estou falando. Sofri ameaças e precisei ter uma arma na mão e pistola engatilhada no colo, pois o pessoal ameaçava e na época o Tribunal de Justiça não dava segurança, por falta de estrutura. Meu marido [que é policial rodoviário federal] ficava de plantão e eu sozinha com as crianças. Agora, você imagine no sitio ou em uma fazenda. As pessoas completamente desamparadas.

Não pode aumentar a violência?
Se alguém quiser fazer uma violência, vai fazer de todo jeito. Eu não acho que a arma deve ser vendida na feirinha ou absolutamente liberada. É preciso ter critérios para não vender para quem tem antecedente criminal ou algum distúrbio psicológico. Mas você estar dentro de casa e poder ser preso em flagrante por posse de arma aí eu já acho que é exagero.

Acredita que política e religião podem se misturar?
Acho que não. Não vejo com bons olhos essa mistura. As pessoas às vezes usam a religião para manipular os cidadãos. Isso que é um perigo. Tudo bem você votar em um candidato que se identifica por questões religiosas, mas não usar a religião em forma de manipulação. Quer dizer, você vota em mim senão Deus vai te castigar. É meio ilógico.

Sobre a pré-campanha, as viagens estão sendo bancadas por quem? A campanha samaritana (teto de gastos) favorece os partidos menores?

A legislação não foi feita para favorecer partidos menores ou candidatos novos. A legislação está toda pronta para não deixar as coisas mudarem. O teto [de gastos] só vai ser respeitado pelas pessoas que não tenham grana ou pelas pessoas que não querem fazer caixa dois. No meu caso estou fazendo viagens mais econômicas, fiz uma viagem de carona no avião do Dilceu Rossato e não me custou nada. Outras de carro, ficaram baratas. Nós temos condições de fazer viagens dessa forma. Esse teto dificilmente vai ser obedecido e respeitado. E eu estou pagando para ver como será essa eleição, especialmente para governador.

Qual a avaliação do governo do Pedro Taques?
Ele enfrentou um período muito grande de dificuldades e Mato Grosso se saiu melhor que muitos Estados. Tiveram lugares como Santa Catarina e Rio de Janeiro, em que as pessoas ficaram meses sem receber, tiveram que parcelar salário. Aqui, o máximo que aconteceu foi dar uma atrasadinha ali de dez dias. No entanto, acredito que poderia ter sido melhor. Têm alguns pecados administrativos. Acho que não estava muito bem assessorado. A gente anda pelo interior e as pessoas se queixam que não fez nada. A impressão que dá é que foi uma gestão inerte, meio perdida, não teve uma garra. E olha que o Estado produziu e arrecadou para "caramba" e a gente não consegue entender o porquê. Teve a crise, mas poderia ter sido melhor.

A senhora, como magistrada e com o poder da caneta, estava na condição de pedra. Agora, se vê na condição de vidraça. Tinha noção de que o jogo político é marcado por conspiração, traição e até constrangimentos?
Estou meia surpresa com as coisas. Fui advogada por onze anos e nesse tempo meu nome não foi nem para o SPC, nem para a esquina, nem para a língua do vizinho. Eu entrei na magistratura e quinze dias depois tinha uma sindicância. Mas é isso, quanto mais você entra para a vida pública, mais vidraça você vira. Quando você acha que já apanhou suficiente, ainda conseguem te caluniar. Quem entende de política tem dito para mim que ninguém bate em cachorro morto. Se tão te apanhando é porque você está bem na pesquisa.

Tem medo do comitê da maldade?
A política Selma não teme, mas a mãe de família e a cidadã sim. Eu temo muito pela fake news, maldade das pessoas, fazerem uma montagem. Eu tenho conversado bastante com a minha família e eles estão compreendendo. Meu filho estava mais espantado no começo. Mas, a gente está andando na rua e as pessoas falam “não liga, vai adiante, não desiste”. Ao mesmo tempo em que estou sendo atacada, também estou vendo que existem pessoas apoiando.
 
 
 
Sitevip Internet