Entrevistas

Páscoa é mistura de festa pagã, judaica e cristã, diz Dom Juventino

14/04/17 às 10:36

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Páscoa é mistura de festa pagã, judaica e cristã, diz Dom Juventino
Bispo da Diocese de Rondonópolis, Dom Juventino Kestering, 70 anos, é nascido em Orleans (SC). Foi ordenado padre em 1973 e conta que nunca imaginou que pudesse se tornar um bispo. Em Rondonópolis desde 1998, onde chegou logo após ser ordenado bispo pelo papa João Paulo II, com quem conversou em três ocasiões. para ele, o ex-líder da igreja  influenciou toda uma geração, tendo difundido a fé em viagens pelo mundo. Dom Juventino, por sua vez, se define como alguém que lê muito, um autodidata, mesmo tendo se formado em teologia e filosofia. “Onde você me achar, vai achar livros. Leio de tudo. Poesia, romance”. Ele também conta que acredita no poder da comunicação, tanto que é ativo nas redes sociais, onde diariamente deixa mensagens de fé, paz e humanidade, e em jornais, site e televisão. Tem um programa semanal na TV aberta chamado “Deus cuida de mim”, que é sucesso de público. “Sou apenas o apresentador de uma mensagem, é assim que acredito na comunicação”. Hoje, o bispo coordena as paróquias de Rondonópolis e mais de 12 cidades: Jaciara, Juscimeira, Fátima de São Lourenço, Dom Aquino, Guiratinga, Tesouro, São José do Povo, Pedra Preta, Alto Garças, Alto Araguaia, Alto Taquari e Itiquira. Dom Juventino recebeu a reportagem com um cafezinho e um largo sorriso. Sempre humilde, alertou que podia perguntar de tudo, que não deixaria nenhuma pergunta sem reposta. Veja os principais trechos.

Acredita que a mensagem da Páscoa chega aos cristãos como deveria?
ão chega como deveria porque a mensagem da Páscoa é mais voltada ao mundo cristão. A Páscoa chega à parcela da população como uma festa, um grande feriado, ovos e coelhos, mas a mensagem da morte e ressurreição de Jesus ainda é muito limitada.

Na Páscoa tratamos da morte e ressurreição de Jesus, acha que as pessoas entendem a mensagem que Jesus deixou?
Esta mensagem que Jesus nos deixou é o anúncio do evangelho e nós como Igreja não conseguimos ainda levar esse anúncio a toda população. Nós temos até uma capacidade de batismo, de eucaristia, mas o anúncio do evangelho com a conversão dos cristãos ainda está muito a desejar. Temos uma parcela da população que carece deste anúncio.

Páscoa: festa pagã, judaica ou cristã?
É uma mistura das três. Ela era uma festa pagã, tornou-se uma festa judaica de muita importância  - que é a libertação do povo de Israel através da travessia do Mar Vermelho e a celebração da noite da Páscoa como noite da libertação. Mas, com Jesus Cristo, a Páscoa não ficou mais com o sentido da libertação do povo da escravidão do Egito, mas como a libertação de toda a humanidade.

É correto as famílias se reunirem na Sexta-feira Santa em banquetes, por exemplo, com bacalhau e outras iguarias?
Acho que Sexta-feira Santa é um dia de respeito. Um dia de silêncio. Um dia que não é para festar. Tem tantos outros dias na vida que a gente pode festar. Eu não concordo que, na Sexta-feira Santa, se faça festas e banquetes.

Acredita que a Igreja Católica vem perdendo espaço para igrejas pentecostais e neopentecostais. Qual seria o motivo?
Não restam dúvidas de que, nos últimos 50 anos, houve uma mudança no perfil religioso das pessoas, que foram para diversas linhas, permaneceram na Igreja Católica, foram para o ateísmo, e foram para outras denominações religiosas. E não resta dúvida também que a grande massa que foi para essas diversas linhas era de cristãos batizados, mas não digo que eram cristãos conscientes e convertidos. Lamentavelmente, muitos foram para as igrejas evangélicas sim, mas atualmente a igreja (católica) vem fazendo todo um trabalho para manter firme os seus fiéis.

Como é feito esse trabalho?
Esse trabalho é feito através das chamadas missões populares: o corpo a corpo. Nós também temos um trabalho muito bonito na diocese com a juventude e temos o trabalho que cada paróquia, cada comunidade, vai visitando casa por casa, levando a palavra de Deus, ajudando as pessoas e fazendo o convite para que retorne à comunidade (católica).

A postura do papa Francisco divide opiniões. Acredita que o caminho a ser seguido é este?
O papa Francisco é uma grande novidade para os tempos atuais e ele tem essa capacidade de não comunicar através de ensinos de teologia, mas comunicar a teologia numa linguagem popular. Eu acredito que o mundo está muito contente com a presença do papa Francisco. No entanto, não resta dúvida que dentro da Igreja Católica existem pequenas alas que acham que ele está exagerando, que ele é simples demais, que se comunica demais com o povo, ele fala das coisas comuns da vida, mas, em todos os setores, há pessoas com posições diferentes.

O que pensa da união entre pessoas do mesmo sexo?
É uma questão antiga e nova. Ela se tornou nova porque hoje os meios de comunicação e leis começam a favorecer. Eu respeito, como já acolhi aqui na minha sala casais do mesmo sexo com todo amor, abracei eles e tudo, mas, como Igreja, na minha posição, acho que não é esse o caminho. Mas, sem nenhum conflito e com todo respeito a quem fizer essa opção.

E do aborto, mesmo em casos de estupros?
Aborto é sempre uma violência. Seja um aborto natural, seja provocado ou em caso de estupro. Eu tenho duas visões. Uma visão é de que algumas mulheres, depois de serem estupradas, que não fizeram o aborto hoje são muito felizes com seus filhos.

A CNBB considera o impeachment de Dilma como um golpe e que as reformas de Temer são retiradas de diretos. O que o senhor pensa sobre isso?
Nós não podemos negar, nem eu, nem a CNBB nega, que a corrupção se espalhou por esse país com partido A, B, C, com fulano, tal e tal. Foi numa obra, na outra e na outra. Se olharmos bem todas as obras que foram construídas nos últimos 40 anos, 50 anos, sempre teve alguém que levou vantagem. Agora, tornou-se mais visível nos últimos tempos. O que me causa surpresa é que, se havia um governo Dilma e Temer eleito junto, porque um foi penalizado um e outro não? Eu acho que, se Dilma perdeu o mandato, o governo perdeu o mandato. Os dois perderam o mandato, os dois foram eleitos, receberam os mesmos recursos, fizeram as coisas erradas. Acho impossível o vice-presidente dizer que não sabia de nada. Estou torcendo que este Brasil melhore, que ano que vem haja eleições legítimas, mas acho que o que fizeram no Brasil foi de maneira errada. Quantos as reformas, são necessárias, mas o problema é que eu já estou com 70 anos e escuto a cada dois anos que haverá reforma e nunca se chega há um definitivo, porque onde se deveria mexer não se mexe. Os privilégios que deveriam tirar não tiram. Os que têm poderes, que estão lá encima, que ganham altos salários, estes nunca são mexidos. Nenhuma reforma não muda muito enquanto não mexermos na raiz. Tem que valer para todos. Agora, valer para uma parte da população e outra não. Isso não é reforma. Isso é ajeito. Já a Previdência é investimento. O aposentado ganha o seu dinheiro e aplica na sociedade. A culpa não é a Previdência e sim o sistema político e econômico mal encaminhado do Brasil.

Qual a mensagem da Igreja para o mundo e o Brasil neste momento tão complicado. É sinal de fim de tempos ou de organização?
É um alerta para que o mundo encontre o caminho da Justiça, da ética e da paz. Com essa multidão de desempregados, com milhões que sofrem, é muito difícil encontrar o caminho certo. Nós precisamos reorganizar a economia no mundo para que toda a população tenha chance, seja na África, na América, no Oriente Médio ou na Oceania. Mas, eu tenho esperança que vem de Jesus Cristo. Jesus é a luz do mundo, o príncipe da paz, o caminho, a verdade e a vida. Se nós nos tornarmos um mundo mais fraterno, mais irmão, mais respeitoso, mais tolerante, nós vamos melhorar essa sociedade sim. Temos que sair do nosso egoísmo e nos tornar mais fraternos.
 
 
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